30/12/2006 - Dia 2 - Refazendo conexões

Contabilidade de crises de choro: 1 crise, tipo leve e rápida, pela manhã

04:15 da manhã. Ouço sons de objetos se chocando violentamente, contra as paredes. Sinto patinhas passando rapidamente pelas minhas costas. São os meus gatos brincando. É algo a que já estou acostumada, mas infelizmente, nessa noite, eles me acordaram. Passados os segundos iniciais após acender meu abajour Tok & Stok, lindo e carésimo (o Ex quase me fez devolver, na época - só porque meu apartamento ainda era praticamente vazio, eu não podia ter uma peça linda daquelas?), naquela confusão do despertar, a realidade bateu com violência inesperada. Veio, claro, acompanhada de uma dor de estômago irritante. Não sei se é assim com todo mundo, mas as fossas, para mim, nunca são apenas uma dor psicológica.

Revisando mentalmente os últimos acontecimentos, sem conseguir voltar a dormir - os gatos já haviam sossegado, agora que já tinham a "mamãe" acordada - me lembrei que faltou olhar as roupas no varal. Claro, haviam muitas coisas dele ali, já que eu sempre priorizava a lavagem das roupas dele, para que ele não precisasse trazer nada no final de semana. Um jeans, uma camiseta pólo de extremo mau gosto, que eu detesto, um par de meias, duas cuecas desbotadas, peças de roupa que me encheram de mágoa e repulsa. Acho que não conseguia mais dormir de raiva, por saber que haviam objetos dele no meu apartamento. De repente, tudo o que era dele havia se tornado repugnante, como se estivessem contaminados. Fontes de energia negativa contaminando meu habitat.

Cogitei a hipótese de um telefonema malcriado, ali, naquela hora mesmo. Depois desisti, achando que ele, além de não atender, podia ficar convencido, imaginando que o que eu queria era rastejar e me humilhar, implorando por sua volta. Nem pensar. Ao invés disso, optei por mandar uma mensagem de texto, bastante amistosa, informando a ele que suas coisas estariam na portaria e, caso ele não as retirasse até o meio-dia, elas se materializariam instantaneamente em uma lata de lixo, como mágica. Descarregada a raiva, restava a angústia do que fazer no ano-novo, já que havíamos planejado viajar juntos, e agora parecia tarde demais para novos planos. Vou acabar trancada aqui sozinha, pensei, enquanto pegava o livro na cabeceira e voltava a ler, esperando o sono chegar.

Misericordiosamente, o sono voltou, embora interrompido não tão misericordiosamente, às 09:30, pelo telefonema do Ex. Ele avisou que estava vindo buscar as coisas, e trazer as minhas chaves e backup, e também buscar seus trapos remanescentes. A contragosto, me levantei e carreguei mais uma sacolinha de supermercado para a portaria. Pouco tempo depois, novo telefonema dele, informando que ele já havia passado por lá e deixado as chaves e os cds, e eu, reanimando os resquícios de ira da noite anterior, nem o deixei concluir a frase, berrando de volta que não havia necessidade nenhuma de ele ter ligado avisando, que os porteiros já haviam me interfonado, e desliguei o telefone na cara dele, sem adeus.

Me sento na sala e passo longos segundos olhando para o nada, até que o telefone toca novamente. Pelo toque, já sabia que não era ele. Era a minha mãe.

Foi então que veio a primeira crise de choro. Foi rápida, apenas algumas poucas lágrimas, enquanto eu contava o ocorrido para a minha mãe. Ela estava na praia, com amigos e o meu irmão, e de repente eu tinha um lugar para ir. Adorei a idéia. O Ex não gosta de sol e praia, e eu, que amo tudo isso, não aguentava mais o meu bronzeado-escritório.

O dia se passou sem maiores incidentes. Sozinha, consegui resolver o problema com as luzes da cozinha e área de serviço, que não acendiam mais. O Ex não era muito bom em prendas domésticas, e não conseguiu resolver aquilo. Eu, sim. Bastou desligar e ligar a chave de força. O lado bom de saber que não conto mais com ele, é não ter mais que ficar esperando que ele resolva nada por mim, vou lá e faço eu mesma. Resolvi ligar o computador e, depois que fiz isso, não consegui mais me levantar de lá. Fiquei surpresa e feliz em falar com tantos amigos, e por descobrir que as pessoas ainda gostavam de mim. Me senti menos sozinha, me senti confortada.

De repente, eu já tinha o convite de um amigo, para passar o Reveillón na Paulista com uma galera, e o de uma amiga, para caminhar no Ibirapuera amanhã de manhã. Já era madrugada, e eu fui dormir me sentindo bem melhor, convicta de que não o quero de volta, de jeito nenhum, e de que a vida pode ser muito melhor sem ele.

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